EUA interceptam navio iraniano que tentou furar bloqueio e Teerã anuncia retaliações

Donald Trump.

Crédito, Tasos Katopodis/Getty Images

Legenda da foto, Autoridades iranianas afirmam que Teerã "não tem planos, por enquanto, de participar" da nova rodada de negociações no Paquistão nesta semana
    • Author, Da BBC Persa e equipes em todo o Oriente Médio
  • Tempo de leitura: 8 min

Os Estados Unidos interceptaram um navio cargueiro de bandeira iraniana no Golfo Pérsico como parte do seu bloqueio naval, afirmou Donald Trump neste domingo (19/4).

O presidente americano escreveu em sua plataforma Truth Social que o Touska foi apreendido pela Marinha dos EUA após não atender a uma ordem de parada.

O anúncio veio depois que a Casa Branca confirmou que o vice-presidente dos EUA, JD Vance, lideraria outra delegação para uma nova rodada de negociações com o Irã no Paquistão sobre o fim da guerra.

Teerã ainda não confirmou sua presença. A mídia estatal iraniana informou que autoridades não participarão enquanto o bloqueio dos EUA permanecer em vigor.

"Hoje, um navio cargueiro de bandeira iraniana chamado TOUSKA, com quase 275 metros de comprimento e pesando quase o mesmo que um porta-aviões, tentou ultrapassar nosso bloqueio naval, e não deu certo para eles", escreveu Trump.

O alto comando militar iraniano declarou em um comunicado que os Estados Unidos violaram o cessar-fogo ao atirar contra navios mercantes iranianos nas águas do Golfo de Omã, desativando seus sistemas de navegação e abordando as embarcações com o envio de fuzileiros navais.

"As Forças Armadas da República Islâmica do Irã responderão prontamente e retaliarão contra este ato de pirataria armada da Marinha dos EUA", acrescentou o comunicado.

Nas redes sociais, Trump disse que os EUA haviam dado ao navio um aviso claro para parar, que foi ignorado. "Então nosso navio da Marinha os deteve imediatamente, abrindo um buraco na casa de máquinas."

"O TOUSKA está sob sanções do Departamento do Tesouro dos EUA devido ao seu histórico de atividades ilegais. Temos a custódia total do navio e estamos verificando o que há a bordo!"

O Comando Central dos EUA divulgou posteriormente imagens que, segundo eles, mostram um navio da Marinha interceptando um cargueiro. Nas imagens, é possível ver um canhão disparando na direção do cargueiro.

Na sexta-feira, Trump havia afirmado que o bloqueio naval aos portos iranianos continuará até que um acordo seja firmado entre os dois países.

Mulheres seguram rifles durante uma manifestação pró-governo do Dia do Exército Nacional, em 17 de abril de 2026, em Teerã, Irã. Em 8 de abril, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou um cessar-fogo de duas semanas entre os EUA e o Irã. As negociações de paz, facilitadas pelo Paquistão, ainda não produziram uma solução duradoura, sendo as principais questões pendentes as capacidades nucleares do Irã e o controle do Estreito de Ormuz.

Crédito, Foto de Majid Saeedi/Getty Images

Legenda da foto, Mulheres seguram rifles durante uma manifestação pró-governo do Dia do Exército Nacional, na sexta-feira (17/4) em Teerã
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Trump anunciou o bloqueio naval após a primeira rodada de negociações, no início deste mês, ter terminado sem acordo. Questões-chave, incluindo o programa nuclear iraniano e o controle do Estreito de Ormuz – uma importante rota de transporte de petróleo – permanecem em disputa.

No início do domingo, Trump afirmou que seus representantes chegariam ao Paquistão, que tem mediado as negociações entre os dois países, nesta segunda-feira. O cessar-fogo expira dois dias depois, na quarta-feira.

Um funcionário da Casa Branca disse à BBC que, além de Vance, a delegação incluiria os assessores de Trump, Steve Witkoff e Jared Kushner, que também estiveram presentes nas negociações anteriores.

Mas a agência de notícias estatal iraniana IRNA afirmou que as notícias sobre uma segunda rodada de negociações com os EUA eram "falsas".

Acrescentou que o bloqueio americano, juntamente com as exigências "excessivas" e a retórica ameaçadora de Washington, "até agora dificultaram o progresso das negociações".

No entanto, os preparativos para novas discussões já começaram na capital paquistanesa, Islamabad.

Os hóspedes do hotel onde ocorreram as negociações entre as delegações dos EUA e do Irã no último fim de semana foram informados de que precisavam deixar o local, relatou o correspondente da BBC no Paquistão.

O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, conversou com o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, na noite de domingo, de acordo com um comunicado divulgado por seu gabinete. O comunicado não mencionou novas negociações entre o Irã e os EUA.

Reviravolta

Durante a escalada da crise, o líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, afirmou que as forças navais iranianas estão prontas para fazerem "os inimigos provarem o gosto de novas derrotas".

A mensagem foi divulgada no sábado por veículos estatais, por ocasião do Dia do Exército, mas não fez menção direta nem ao Estreito de Ormuz, nem às negociações com os Estados Unidos.

O Estreito de Ormuz permaneceu fechado no domingo, um dia depois de a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) ter anunciado o fim da reabertura temporária em resposta ao bloqueio dos EUA, que, segundo a IRGC, violava os termos do acordo de cessar-fogo. O Irã afirmou que o estreito permanecerá fechado até que os EUA encerrem o bloqueio naval.

Cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) do mundo são normalmente transportados pelo estreito. O número de navios que fazem a travessia diminuiu drasticamente durante o recente conflito, que provocou a disparada dos preços globais da energia.

Trump afirmou que o Irã não pode "chantagear" os EUA com ameaças relacionadas à hidrovia.

Ele ameaçou destruir todas as pontes e usinas de energia do Irã se Teerã não concordasse com um acordo de paz.

O fechamento do Estreito de Ormuz, ocorrido na manhã do sábado, foi realizado segundo autoridades iranianas, porque os EUA "não cumpriram sua parte" no entendimento mais recente, ao manter o bloqueio de navios com destino ou origem em portos iranianos.

Em comunicado, as autoridades classificaram o bloqueio americano como "pirataria" e "roubo marítimo".

A medida representa uma reviravolta em relação ao que havia sido anunciado poucas horas antes. Na sexta-feira, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que o estreito permaneceria "completamente aberto" para navios comerciais durante o período de cessar-fogo.

Minutos depois, Trump agradeceu a declaração, mas deixou claro que o bloqueio americano continuaria "até que um acordo com o Irã esteja 100% concluído".

A situação atual contrasta diretamente com o discurso da Casa Branca, que havia indicado uma normalização rápida do tráfego marítimo na região, e a troca de mensagens marcou o início de uma sequência de declarações desencontradas entre Washington e Teerã.

Na sexta-feira, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, acusou Trump de fazer "sete afirmações falsas em uma hora" e indicou que, com a continuidade do bloqueio, o estreito não permaneceria aberto.

Mulheres iranianas seguram fotos do líder supremo iraniano, o aiatolá Mojtaba Khamenei, durante um protesto anti-EUA e anti-Israel chamado "meninas sacrificadas" em Teerã, na sexta, 17 de abril.

Crédito, Abedin Taherkenareh/ EPA/Shutterstock

Legenda da foto, Mulheres iranianas seguram fotos do líder supremo iraniano, o aiatolá Mojtaba Khamenei, em protesto anti-EUA e anti-Israel na sexta-feira

Dados do site de monitoramento MarineTraffic indicam que alguns petroleiros chegaram a cruzar o estreito nas primeiras horas do sábado. No entanto, após os novos anúncios, várias embarcações parecem ter alterado suas rotas. Um dos casos é o do petroleiro Minerva Evropi, de bandeira grega, que teria feito um retorno em direção ao porto de origem.

O Estreito de Ormuz é uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo, por onde passa uma parcela significativa do petróleo global. Qualquer interrupção no fluxo de navios na região tende a gerar volatilidade nos mercados internacionais.

A escalada ocorre em meio a negociações frágeis entre EUA e Irã. Trump afirmou recentemente que Teerã teria "concordado com tudo", incluindo a remoção de urânio enriquecido do país — alegação negada por autoridades iranianas.

O presidente americano também sugeriu que um acordo histórico com Teerã poderia estar próximo — avaliação que não se confirma com a nova decisão iraniana.

Para a correspondente internacional da BBC, Lyse Doucet, o cenário atual é marcado por uma "avalanche de declarações contraditórias", refletindo negociações ainda longe de um consenso.

Apesar da retórica intensa, não há, até o momento, sinais de confronto direto na região. Um cessar-fogo entre Israel e o Hezbollah no Líbano parece estar sendo mantido, o que pode ajudar a evitar uma escalada maior — embora incidentes isolados ainda tenham sido registrados.

No terreno, a situação interna do Irã também chama atenção.

Um apagão digital imposto pelo governo já dura 50 dias, segundo a organização NetBlocks, isolando o país da internet global. O acesso alternativo, via sistemas como o Starlink, tem custo elevado — cerca de US$ 6 por gigabyte — em um país onde o salário médio mensal gira entre US$ 200 e US$ 300. O uso dessas conexões pode levar a penas de até dois anos de prisão.

Ao mesmo tempo, o Irã começou a reabrir parcialmente seu espaço aéreo, com a retomada gradual de voos internacionais em partes do território, após semanas de fechamento devido aos ataques envolvendo forças americanas e israelenses.

O Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã afirmou que o país está "determinado a monitorar e controlar" o trânsito no Estreito de Ormuz até o fim definitivo da guerra e o estabelecimento de uma paz duradoura na região.

Segundo o órgão, isso incluirá a coleta de informações das embarcações, a emissão de certificados de trânsito e a cobrança de taxas.