Campelo vai ser suspenso do PP
A questão opõe o presidente do partido, Paulo Portas, a grande parte da sua comissão directiva, mas, da reunião da passada sexta-feira, saiu, segundo um dirigente, uma posição consensual: Campelo ainda pode ser o candidato do partido se aceitar a sanção que lhe for aplicada, pedir desculpa por ter votado o OE ao contrário das orientações da direcção e prometer que não volta a fazer o mesmo, o que poderia também passar pela renúncia ao mandato de deputado.Ou seja, só se Daniel Campelo — cuja suspensão pode ser de poucos meses — fizesse um acto de contrição, o CDS-PP poderia manter aquela câmara e Portas poderá manter a cara. É que o líder do CDS-PP, logo a seguir a saber-se que o autarca iria viabilizar o OE, deu uma conferência de imprensa em que foi muito duro para com Campelo, tendo concluído que preferia perder uma câmara a perder a alma. O autarca viabilizou o OE em troca de melhoramentos no seu distrito.
Passados sete meses e com o processo autárquico em marcha, são muitas as pressões para que Portas aceite Campelo. Vários membros da comissão directiva do CDS-PP com que o PÚBLICO falou defendem que o autarca continue a ser candidato pelo CDS-PP, um partido que tem sempre dificuldades nas eleições autárquicas e que, por isso mesmo, não deve perder mais uma câmara.
Campelo é um dos oito presidentes de câmara que o CDS-PP tem neste momento. Desses oito, já perdeu um — o presidente da Câmara Municipal da Batalha, António Lucas, que mudou para o PSD — e perdendo Campelo não perde só mais uma câmara. É que o autarca de Ponte de Lima tem uma expressão eleitoral que vai para além do seu concelho, pelo que o facto de não correr pelo CDS-PP pode afectar a votação do partido em todo o distrito.
Por tudo isto, o coordenador autárquico do CDS-PP, Anacoreta Correia, já defendeu, em entrevistas ao “Jornal de Notícias” e à Rádio Renascença, que Daniel Campelo é o melhor candidato do partido para Ponte de Lima. Para Anacoreta, o autarca tem atenuantes para o seu comportamento na votação do OE: é bom autarca, o que fez foi em beneficio do seu concelho e cumpriu a palavra dada, enquanto outros autarcas, do PSD, recuaram, deixando-o sozinho.
A posição do coordenador autárquico, expressa a título pessoal, pareceria, assim, entrar em contradição com a do líder do partido, que não admite qualquer recuo nesta matéria. Para Portas, esta é uma questão de princípio em que não pode recuar sob pena de ser visto como um líder sem palavra. Esta é também uma questão em que o CDS-PP deve marcar a diferença: afinal, Guterres já engoliu Gomes e Durão Barroso aceitou Santana Lopes, pelo que se o PP quer ser diferente não pode recuar.
Portas, que se recusa a falar sobre o assunto antes de ser divulgada a decisão do conselho de jurisdição, não terá, contudo, afastado para já a posição intermédia de deixar uma fresta da porta aberta, convicto de que Campelo nunca aceitará pedir desculpa ao partido. Também o presidente da Câmara de Ponte de Lima recusa dizer o que pretende fazer antes da divulgação da decisão disciplinar que lhe será aplicada.
“Aguardo serenamente que seja divulgado o veredicto do conselho de disciplina”, disse ao PÚBLICO, acrescentando que mesmo depois de conhecer esse veredicto irá, antes de mais nada, consultar o que chama “meu povo”. Quanto à hipótese de fazer um acto de contrição, como defendem vários dirigentes do partido, responde: “Alguém tem de me dizer isso a mim. Não aceito recados pela comunicação social.” Campelo aproveita ainda para lembrar que é “um homem de serviço público e uma pessoa com humildade”.






